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terça-feira, 13 de julho de 2010

Relembrando Caronte



Corriam homens e mulheres, idosos e crianças misturados na mesma nuvem cinzenta, ofegantes e atentos à volta de uma única barca velha que os levariam ao outro lado do rio.


A barca era conduzida por um homem magro, cabelos e barbas revelavam sua idade, as marcas no rosto eram profundas e sua arrogância amedrontava aquelas pobres almas desesperadas e vazias. A travessia era sempre lenta e cuidadosa, assim como a seleção dos passageiros. Cada vez que retornava para o lado dos vivos, a multidão se exaltava, ouvia-se gritos e choros, gratidão e humilhação perante o severo senhor que ia empilhando almas em sua barca e, ao mesmo tempo, empurrando para longe de si aquelas que julgava não merecerem o lado das sombras, já que não traziam consigo nada de valor e nem sequer tiveram um sepultamento digno feito pela família.

Esses seres que não tinham a permissão de atravessar o rio eram temidos pelos vivos, pois caberia a eles vagar por cem anos no mínimo à margem do rio e atormentariam a vida daqueles que a possuíam.


Semblantes revigorados de um lado, a angústia ensurdecedora do outro, e continuava o velho homem a remar sua pequena barca de madeira firme, desgastada pelo suor da morte.

3 comentários:

P. Moai disse...

Os meus parabéns pelo texto. Muito bom!

emanuelburaga disse...

Meus Parabéns, é seu? ou é um trecho de algum livro?

Ca disse...

Obrigada, e eu mesma escrevi, baseada em coisas já lidas =)

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