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terça-feira, 4 de maio de 2010

Segredo confiado




Caminhava sob o sol gélido, pois o frio completo, sem raios desavergonhados saindo das nuvens, quase já se fora.


Tinha acordado cedo, exatamente na hora que ele dissera na noite anterior, sem muita vontade aparente, ter que acordar. O trabalho agora o chamava, o despertava e o mantinha longe dela durante toda a semana longa e cinza.


Não tinha sido por falta de sono ou barulho qualquer, ela simplesmente levanta após um sonho rápido e as mãos ainda sem muita coordenação acharam o celular que indicava a hora. Lembrara dele, pensara muito até. Volta a dormir, sem vontade, mas o que mais faria alí sem os seus (o seu, assume) motivos, combustíveis e ânimos recentes?
Quase quatro horas depois levanta-se de vez, cambaleando quase sem conseguir abrir os olhos e lava o rosto, depara-se com uma imagem fosca, sem brilho e imersa em nuvens matinais. Recorda-se que talvez tenha chance de vê-lo nesse dia, 30 dias oficiais(quase solta gargalhadas, aquilo não soa comum para ela, nunca fora até então) e deixa a água correr pelo corpo sem pressa, relaxado e ainda com a quentura da cama, o velho cobertor xadrez.

Faz questão, quase como uma necessidade tola, de demonstrar sua boa vontade de tudo naquele dia, suas histórias de fim de semana, sua tagarelice comum. Afinal, dia comum da rotina escolar. Amigos comuns. Tudo igual.
E escurece fora daquela sala fria do ar condicionado, ela estremece e reclama, por dentro um grito súbito e ensurdecedor. Sai do local e não admite, como sempre, disfarçando as incertezas e esperanças, somente se vira ao cruzar o portão de fim de escada. Ele não esperava sentado. O sorriso não se abrira como ensaiara e planejara meticulosamente.

-Mas nem era de se esperar, pra que tanta ansiedade? Você mesma disse que não sabia. Nem acreditava.
-Mas e daí, queria. Sempre quero e no fundo, sempre espero.

Mais uma olhada pra trás. Vai embora. Caminha nas calçadas com lama pisoteada e pálida. E até chegar em casa, ouve as músicas repetidas no último volume, ignorando o pedido de um senhor qualquer, finge não ver rostos conhecidos. Vai pra casa, só isso.


O cachorro a recebe de maneira encantadora, o agarra e se encolhe no sofá. O banho quente antes de ligar o computador é bom, aproveita cada minuto daquilo. Internet. Sabe que alí o encontrará, como também seus ciúmes(outro fato não admitido).
E se falam, felicidade instantânea que ela faz questão de cultivar.
Inconsciência, torpor, azedo, fome. Não foi por vontade propriamente dita, mas logo precisa sair dali, não suporta mais, na verdade não quer. Bobeiras que tenta explicar a sí mesma, mas a sensação ela não mudaria, ficaria ali contida por mais um tempo. Sensação inconveniente. Aquele "xoxo" definiu.
Passaria, certamente. Ser mais objetiva, direta era quase impossível, o orgulho emana. Rí daquela cena patética criada por ela mesma.

Noite de um dia especial terminada de forma líquida que explodia dos olhos castanhos cansados.

Lê, ironicamente:
"Dizia que o outono logo chegaria, que o fogo do amor queimava a carne e depois se queimava - apagando-se e desaparecendo para sempre.
- Tu precisas ir em frente, teu barco tem que passar pela minha ilha, tu tens trabalho a fazer.
- Este é o meu trabalho e esta é a nossa ilha."

E se deita, deseja e espera. Paciência. "Mantém o sangue frio e o coração quente."

Um comentário:

Beert disse...

ual. Ual. Uaaaaaal

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